top of page

Petrolina, 131 anos: Quando a memória ajuda a contar a história

Foto do escritor: João Barros
João Barros
22 de set.
6 min de leitura

Por Rinaldo Remígio *

Sempre gostei de ler, pesquisar e ir em busca da informação, especialmente ouvindo pessoas que conhecem, testemunharam ou até participaram dos acontecimentos que procuro narrar. Os documentos registram datas, decisões e obras; as pessoas, porém, guardam aquilo que nem sempre chegou ao papel: os bastidores, as conversas, os gestos e as lembranças de uma época.

Esta crônica nasceu também assim.

Recentemente, conversando com o ex-prefeito de Petrolina, médico e empresário Dr. Augusto Coelho, filho do Coronel Quelê e testemunha privilegiada de importantes passagens da história de nossa região, manifestei meu interesse em conhecer um pouco mais sobre determinados acontecimentos que ajudaram a construir a Petrolina que temos hoje.

Dr. Augusto, com aquele jeito de quem mistura brincadeira e seriedade, respondeu-me com uma frase que ficou em minha memória:

“Se deseja conhecer um pouco mais da história, aproveite, pois restam poucos sobreviventes…”

A frase parece simples. Não é.

Ela carrega uma advertência sobre o tempo.

Cada geração que parte leva consigo uma biblioteca que, muitas vezes, nunca foi escrita. São histórias guardadas na memória de homens e mulheres que presenciaram acontecimentos importantes e que, se não forem ouvidos enquanto estão entre nós, poderão levar consigo informações que nenhum arquivo conseguirá recuperar.

Dr. Augusto, aos 90 anos, permanece ativo naquilo que sempre gostou de fazer: cuidar das pessoas. E ouvi-lo é também percorrer parte da história de Petrolina.

Foi a partir dessas conversas, somadas às leituras e pesquisas, que voltei meus olhos para o ano de 1968.

Naquele ano, dois homens, vindos de realidades completamente diferentes, encontraram-se em Petrolina e olharam para o mesmo Sertão.

De um lado estava Nilo Coelho, então governador de Pernambuco, sertanejo que conhecia profundamente sua terra, seu povo e, principalmente, as possibilidades oferecidas pelo Rio São Francisco.

Do outro, Robert McNamara, que em abril daquele mesmo ano assumira a presidência do Banco Mundial, depois de ter ocupado o cargo de secretário de Defesa dos Estados Unidos.

McNamara chegou ao Nordeste numa época em que falar do Sertão, principalmente para quem o observava de longe, significava quase sempre falar de seca, pobreza, retirantes e dificuldades.

Nilo queria mostrar outra coisa.

Queria mostrar possibilidades.

Queria demonstrar que o problema daquela região não era simplesmente a ausência de água. Afinal, diante de Petrolina corria, majestoso e permanente, o Rio São Francisco.

O desafio era fazer a água chegar à terra.

Era preciso transformar potencialidade em produção, esperança em planejamento e planejamento em investimento.

Foi nesse contexto que o encontro entre Nilo Coelho e Robert McNamara, em Petrolina, ganhou dimensão histórica.

Imagino a cena.

De um lado, o homem que comandava uma das mais importantes instituições financeiras internacionais do mundo.

Do outro, um governador sertanejo procurando demonstrar ao seu interlocutor que aquelas terras aparentemente secas poderiam produzir em escala, gerar empregos, alimentar famílias e abastecer mercados muito além das fronteiras do Nordeste.

Nilo não precisava inventar um novo Sertão.

Precisava apenas fazer com que os outros enxergassem aquele que ele já conseguia ver.

O Sertão irrigado.

A experiência de Bebedouro começava a demonstrar que aquela visão não era fantasia. Em 1968, tiveram início a construção e a operação inicial daquele que se tornaria um dos projetos pioneiros da agricultura irrigada no Vale.

Era uma semente.

E algumas sementes precisam de tempo para revelar o tamanho da árvore que carregam dentro de si.

A aproximação de Nilo Coelho com McNamara e o Banco Mundial integrou um movimento muito maior de investimentos e políticas públicas que ajudaria a consolidar a irrigação como instrumento de desenvolvimento do Vale do São Francisco.

Vieram estudos, recursos, obras, canais, estações de bombeamento, estradas, energia, pesquisa, assistência técnica e novos projetos.

Mas vieram, sobretudo, homens e mulheres dispostos a trabalhar.

Porque dinheiro algum, sozinho, transforma uma região.

A verdadeira transformação aconteceu quando a infraestrutura encontrou o trabalhador; quando a ciência encontrou o agricultor; e quando a água encontrou a terra.

Décadas depois, outros grandes projetos ampliariam aquela fronteira agrícola. Entre eles, o perímetro que recebeu justamente o nome de Senador Nilo Coelho, cuja operação começou em 1984 e que se transformaria em uma das grandes referências da agricultura irrigada brasileira.

O antigo Massangano também se incorporaria a essa história. Maria Tereza ampliaria a área produtiva. Bebedouro permaneceria como testemunha pioneira de uma experiência que ajudou a demonstrar que produzir no Semiárido não era apenas possível: poderia transformar toda uma economia regional.

E o Vale floresceu.

Floresceu literalmente.

Onde muitos enxergavam apenas as limitações impostas pelo clima, começaram a surgir parreirais e grandes áreas produtivas.

Vieram as mangas, as uvas e tantas outras culturas.

Chegaram os packing houses, as câmaras frigoríficas, os caminhões refrigerados, os técnicos, engenheiros agrônomos, pesquisadores, empresários e milhares de trabalhadores.

A fruta produzida no Sertão passou a viajar para longe.

Muito longe.

A uva colhida sob o sol de Petrolina passou a chegar às mesas de consumidores em diferentes partes do mundo.

E uma região historicamente associada à escassez passou a ser conhecida também pela abundância de sua produção.

Talvez esteja aí uma das maiores lições dessa história.

O desenvolvimento começa quando alguém consegue enxergar antes dos outros aquilo que ainda não existe.

Nilo enxergou.

Mas seria injusto atribuir a transformação do Vale a apenas dois homens.

Essa história foi construída por sucessivos governos, instituições públicas, organismos de financiamento, técnicos, pesquisadores, produtores, empresários e trabalhadores. Passou pelos órgãos responsáveis pelo desenvolvimento do São Francisco, pela pesquisa agropecuária, pelas universidades e, principalmente, por milhares de famílias que fizeram da agricultura irrigada seu trabalho e sua esperança.

Desenvolvimento verdadeiro nunca é obra de uma única pessoa.

Mas existem homens que ajudam a abrir caminhos.

Nilo foi um deles.

E aqui retorno àquela frase do Dr. Augusto:

“Aproveite, pois restam poucos sobreviventes…”

Talvez devamos levá-la muito a sério.

Precisamos conversar com essas pessoas.

Precisamos ouvi-las.

Precisamos registrar suas lembranças.

Precisamos confrontar suas memórias com os documentos e transformar aquilo que for possível em história escrita.

Porque chegará um momento em que não poderemos mais perguntar.

Restarão apenas os documentos, as fotografias e aquilo que tivemos o cuidado de registrar.

Passaram-se mais de cinco décadas daquele encontro de 1968.

McNamara se foi.

Nilo também.

Mas basta percorrer hoje as áreas irrigadas de Petrolina e Juazeiro para perceber que algumas ideias sobrevivem aos homens que as defenderam.

Elas estão nos canais que cortam a terra.

Estão nas bombas que levam água às plantações.

Estão nos parreirais alinhados quase geometricamente.

Estão nas mangas e uvas que atravessam oceanos.

Estão nos empregos gerados no campo e na cidade.

Estão nas famílias que construíram suas vidas em torno da agricultura irrigada.

E estão, sobretudo, na extraordinária capacidade que Petrolina e o Vale demonstraram de desafiar aquilo que durante muito tempo parecia ser o seu destino.

Quando Robert McNamara chegou a estas terras, em 1968, encontrou um Sertão que ainda precisava convencer o mundo de suas possibilidades.

Nilo Coelho tratou de apresentá-las.

Hoje, já não precisamos convencer ninguém.

O próprio Vale do São Francisco é a prova.

E talvez Dr. Augusto tenha me dado, naquela conversa, uma lição que ultrapassa esta crônica: a história não está apenas nos livros. Enquanto seus protagonistas e testemunhas estiverem entre nós, a história também fala.

Cabe a nós ter a disposição de ouvi-la, antes que o tempo silencie suas vozes.

E aí está a história de apenas um dos grandes projetos que ajudaram a construir Petrolina ao longo dos seus 131 anos.

Um capítulo entre tantos outros escritos por homens e mulheres que acreditaram nesta terra, enfrentaram desafios, ousaram pensar grande e contribuíram para transformar uma cidade sertaneja em uma das mais importantes referências econômicas do interior nordestino.

Quantas outras histórias ainda estão guardadas na memória daqueles que participaram dessa caminhada?

Quantos acontecimentos decisivos permanecem conhecidos apenas por quem os testemunhou?

Quantos personagens, alguns conhecidos e outros anônimos, também ajudaram a construir a Petrolina que hoje celebramos?

Talvez seja exatamente esse o sentido da advertência bem-humorada, mas profundamente séria, do Dr. Augusto Coelho:

“Se deseja conhecer um pouco mais da história, aproveite, pois restam poucos sobreviventes…”

Precisamos aproveitar.

Ouvir, pesquisar, conferir, registrar e escrever.

Porque celebrar os 131 anos de Petrolina não significa apenas recordar a data de sua emancipação política. Significa preservar a memória daqueles que, geração após geração, ajudaram a construir esta cidade.

A irrigação é um desses capítulos.

Existem muitos outros.

E cada um deles ajuda a explicar por que Petrolina chegou até aqui.

Uma cidade não é construída apenas de concreto, obras e grandes projetos. É construída também de sonhos, decisões, coragem, trabalho e memória.

E enquanto houver quem conte e quem esteja disposto a ouvir, a história de Petrolina continuará viva.

Porque o Sertão fez aquilo que durante muito tempo muitos julgavam impossível:

floresceu.

*Professor universitário aposentado, administrador, contador, historiador e mestre em economia!

Comentários


bottom of page