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Nascimento PY7-JN, o radioamador que transformou o rádio em uma forma de servir

Foto do escritor: João Barros
João Barros
26 de set.
7 min de leitura

Aos 72 anos de idade e com mais de 40 anos dedicados ao radioamadorismo, José Manoel do Nascimento é um exemplo de quem transformou a paixão pelo rádio em uma forma de servir ao próximo. Conhecido carinhosamente como Nascimento entre radioamadores de diferentes partes do Brasil, ele construiu, ao longo de décadas, uma trajetória marcada por amizades, experiências, desafios e pelo compromisso com a comunicação.


Casado, pai de cinco filhos, avô de quatro netos e bisavô de um bisneto, Nascimento descobriu o radioamadorismo ainda no século passado, quando trabalhava como funcionário público. Na época, precisou utilizar um rádio durante o trabalho e acabou se interessando pela comunicação.

O que começou como uma necessidade profissional logo se transformou em uma paixão.


“Naquele momento, comecei a tomar gosto pela comunicação. A partir daí, o interesse só foi crescendo e estou até hoje nesse maravilhoso mundo do radioamadorismo”, relembra.

No início dessa trajetória, Nascimento contou com o incentivo de colegas que tiveram papel importante em sua aproximação com o hobby, entre eles Araújo (PY7CT) e Álvaro (PY7QG).


Foi na década de 1980 que ele começou suas primeiras experiências como radioamador, utilizando um HT Yaesu FT-207R, seu primeiro equipamento. Ele ainda guarda na memória o primeiro contato realizado pelo rádio, justamente com Araújo (PY7CT).

Naquela época, entretanto, ingressar no radioamadorismo não era tão simples quanto nos dias atuais. Os equipamentos tinham preços elevados e o acesso à tecnologia era bastante limitado.

“O gosto pelo hobby foi aumentando com o passar dos anos. Mas, acima de tudo, o que me fez permanecer foi a amizade e a irmandade que existem entre os radioamadores. A frequência acaba se tornando uma verdadeira família”, destaca Nascimento.

Ao longo de mais de quatro décadas, José Manoel acumulou histórias e experiências que ajudaram a construir sua relação com o radioamadorismo. Entre as lembranças que guarda com maior carinho está sua participação voluntária junto à Defesa Civil durante as enchentes de 2010.

“Tenho muito orgulho de ter participado como voluntário junto à Defesa Civil durante as enchentes de 2010, contribuindo com a comunicação em um momento tão difícil”, conta.

Durante a enchente em Pernambuco Radioamadores foram reoconhecidos pelo Governador do Estado
Durante a enchente em Pernambuco Radioamadores foram reoconhecidos pelo Governador do Estado

Sua trajetória também inclui a presidência da LABRE-PE e, atualmente, a atuação à frente da URPE — União dos Radioamadores de Pernambuco.

Outra lembrança especial foi um contato realizado com o radioamador André (PY0FF), em Fernando de Noronha, utilizando VHF no modo Simplex.


Para Nascimento, são justamente situações como essas que mostram a dimensão do radioamadorismo e sua capacidade de aproximar pessoas e auxiliar em momentos nos quais outros meios de comunicação podem não estar disponíveis.

Ele recorda, por exemplo, uma ocasião em que ajudou na comunicação e na orientação de um veleiro que precisava chegar com segurança ao Porto do Recife durante uma situação de mau tempo. “É justamente nesses momentos que percebemos a importância do radioamadorismo”, afirma.


Como todo radioamador com décadas de experiência, Nascimento também coleciona histórias curiosas. Ao ser questionado sobre a situação mais inusitada ou engraçada que viveu por meio do rádio, ele lembrou um episódio envolvendo um colega conhecido na frequência pelo apelido de “Criança”.

A história aconteceu depois de uma reunião da LABRE. O colega, que utilizava o indicativo PY7BGD, foi abordado por um ladrão enquanto estava dentro do carro. Depois que entregou a chave e saiu do veículo, o assaltante simplesmente fugiu correndo. O motivo da situação ter se tornado uma história divertida entre os radioamadores estava no apelido.


“‘Criança’ só tinha o apelido, porque de criança ele não tinha absolutamente nada: era um homem enorme!”, conta Nascimento, entre risos.

Entre os contatos que considera mais marcantes está uma comunicação em VHF, no modo Simplex, com a cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte. “Foi um contato que me marcou e mostrou, mais uma vez, o quanto o rádio pode nos surpreender”, lembra.

Uma das experiências que despertaram ainda mais seu interesse pelo radioamadorismo aconteceu quando estava em Petrolina a trabalho. Na ocasião, precisava entrar em contato, pelo rádio, com a sede da empresa onde trabalhava. Durante a comunicação, acabou sendo contestado por uma embarcação de pesca de lagosta, identificada como PRN385, que estava em alto-mar, na região de Natal, no Rio Grande do Norte. A comunicação a uma distância tão grande chamou sua atenção. “Fiquei impressionado com aquela comunicação a uma distância tão grande. Foi aí que comecei a me interessar cada vez mais pelo rádio, uma paixão que permanece até hoje”, recorda.


Para ele, o radioamadorismo ultrapassa os limites de um simples hobby. “O radioamadorismo me ensinou o valor de servir sem esperar nada em troca, a ter paciência, respeitar o próximo e entender que a verdadeira comunicação é capaz de aproximar pessoas de qualquer lugar, como se fossem da mesma família. É, portanto, uma extensão da minha vida”, afirma.

Segundo ele, o rádio é, ao mesmo tempo, passatempo, ferramenta de serviço comunitário e elo permanente com os amigos conquistados ao longo de mais de quatro décadas.


Com a chegada da internet, dos modos digitais e de novas tecnologias, o radioamadorismo também passou por transformações. Para Nascimento, a evolução tecnológica deve ser vista como uma oportunidade de ampliar as possibilidades do hobby.

“Vejo de forma positiva. A tecnologia veio para somar e ampliar as possibilidades do radioamadorismo. Não sou contra os novos modos; pelo contrário, acredito que devemos conhecer e utilizar essas tecnologias”, explica.

Ao mesmo tempo, ele defende a preservação dos sistemas analógicos. “O analógico faz parte da história do radioamadorismo e continua tendo grande importância, principalmente quando pensamos em comunicação direta e em situações de emergência, sem depender de internet ou telefonia celular”, ressalta.


Para ele, os diferentes sistemas podem coexistir. “Podemos ter sistemas digitais, internet, novos modos de transmissão e, ao mesmo tempo, manter o analógico vivo. É justamente essa diversidade que torna o radioamadorismo tão especial.”

Uma das preocupações de Nascimento é despertar o interesse das novas gerações pelo radioamadorismo. Para isso, acredita que é necessário apresentar o rádio de maneira prática, aproximando-o de escolas, universidades, eventos e ações de campo. “Precisamos mostrar o rádio na prática. Levar o radioamadorismo para escolas, universidades, eventos e ações de campo, mostrando aos jovens que ele também pode caminhar junto com a tecnologia.”

Segundo ele, os jovens podem conhecer os modos digitais, computadores, satélites e outras ferramentas tecnológicas, sem deixar de descobrir a possibilidade de estabelecer uma comunicação diretamente pelo rádio.


Aos que pensam em ingressar no radioamadorismo, Nascimento deixa um convite:

“Venha de coração aberto. O radioamadorismo não é apenas operar um rádio. É entrar para uma grande fraternidade, conhecer pessoas, aprender constantemente e descobrir que, mesmo estando longe, você nunca está sozinho.”

Para a próxima geração, o conselho é igualmente direto: “Respeitem a ética operacional, cuidem das frequências, respeitem os colegas, apoiem as associações e nunca deixem morrer o espírito de servir à comunidade, principalmente nos momentos em que a comunicação convencional não estiver disponível.”

Mesmo depois de mais de 40 anos, ele não demonstra arrependimento pela escolha que fez. “Sem nenhuma dúvida, faria tudo novamente. O radioamadorismo me proporcionou amizades, experiências, aprendizados e momentos que fazem parte da minha história.”


Atualmente, José Manoel está à frente da URPE — União dos Radioamadores de Pernambuco, entidade que, segundo ele, tem entre seus objetivos unir os radioamadores, fortalecer o radioamadorismo no estado, promover encontros, apoiar os colegas e contribuir para a manutenção da infraestrutura de comunicação.

“Também buscamos incentivar novos radioamadores, apoiar atividades técnicas e manter sistemas de comunicação que possam ser úteis tanto no dia a dia quanto em situações de emergência ou contingência”, explica.

Nascimento também atua como coordenador do sistema de repetidoras do Recife. Segundo ele, a rede é formada por estações instaladas em pontos estratégicos, permitindo ampliar o alcance das comunicações e proporcionar cobertura para a Região Metropolitana do Recife e outras localidades, além de possibilitar a integração com sistemas de outras regiões.

“É um trabalho que exige manutenção, dedicação e a colaboração de vários radioamadores. Nosso objetivo é manter as repetidoras funcionando e disponíveis, especialmente quando forem necessárias para comunicação em situações de emergência.”


Outra atividade à qual Nascimento dedica atenção é a organização dos grandes encontros de radioamadores realizados em São Lourenço da Mata. Para ele, esses eventos têm papel importante na integração da comunidade. “Mais do que reunir pessoas e equipamentos, eles permitem trocar experiências, conhecer novos colegas, apresentar tecnologias e fortalecer a nossa união.”

A participação na organização desses encontros, segundo Nascimento, é uma forma de manter viva uma das principais características do radioamadorismo: a convivência entre pessoas que compartilham a mesma paixão.

Nascimento também participou de iniciativas que contribuíram para levar a banca examinadora da Anatel para o interior de Pernambuco, facilitando o acesso de pessoas interessadas em ingressar no radioamadorismo. “Com o apoio de alguns servidores da época, conseguimos contribuir para a descentralização dos exames da Anatel, facilitando o acesso de pessoas do interior que tinham interesse em ingressar no radioamadorismo.”


Para ele, a iniciativa teve um significado especial. “Levar o exame para mais perto dos interessados significa também levar novas pessoas para dentro do nosso hobby.”

Depois de mais de quatro décadas de dedicação, José Manoel continua olhando para o futuro do radioamadorismo sem abrir mão de suas raízes. Ele acredita que o setor precisa acompanhar a evolução tecnológica e conhecer os novos sistemas e modos de transmissão, mas sem abandonar aquilo que construiu sua história. “Uma coisa não precisa substituir a outra. Podemos ter sistemas digitais, internet, novos modos de transmissão e, ao mesmo tempo, manter o analógico vivo.”

Seu principal objetivo atualmente é continuar contribuindo para o fortalecimento do radioamadorismo, incentivar novos colegas, apoiar as associações e ajudar a manter ativa a infraestrutura de comunicação.


“Quero continuar trabalhando para que as repetidoras e os sistemas analógicos permaneçam ativos e operantes, porque acredito que o futuro do radioamadorismo pode ser digital, moderno e tecnológico, mas sem precisar apagar a nossa história.”

Para Nascimento, o maior patrimônio construído durante esses anos não está nos equipamentos, nas antenas ou nos contatos realizados, mas nas pessoas que conheceu pelo caminho.

“Sem dúvida, são as amizades sinceras construídas ao longo desses anos. Conheci centenas de pessoas através do rádio e tive a oportunidade de ajudar outras tantas em momentos difíceis. Essa sensação de poder servir e ser útil é uma das maiores recompensas que o radioamadorismo me proporcionou.”

Aos colegas que compartilharam a frequência com ele durante essa longa caminhada, deixa uma mensagem de gratidão:


“Minha eterna gratidão pela companhia, pelas conversas, pelas experiências compartilhadas e por todos os momentos vividos através do rádio. Cada colega que passou pela frequência deixou um pouco da sua história na minha. Vocês fazem parte da minha caminhada e ajudam a manter essa chama acesa.”

E, se toda a sua história no radioamadorismo pudesse ser resumida em uma única mensagem transmitida pelo rádio, José Manoel não teria dúvidas sobre o que dizer:

“PY7JN em QAP e QRV. Um forte 73 a todos! Vamos manter a comunicação viva e o espírito do radioamadorismo sempre aceso!”

Mais de 40 anos depois dos primeiros contatos, a mensagem continua atual: os equipamentos mudaram, a tecnologia avançou e novas formas de comunicação surgiram, mas, para José Manoel do Nascimento, a essência permanece a mesma — comunicar, fazer amigos e estar disponível para servir.

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