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Jackson Farias Braga – PR7FB: um apaixonado pelo rádio que colocou o mundo ao alcance das mãos

Foto do escritor: João Barros
João Barros
6 de out.
8 min de leitura

Atualizado: 6 de out.


Jackson Farias Braga: um exemplo de radioamador
Jackson Farias Braga: um exemplo de radioamador

Na sequência da nossa série semanal de homenagens aos radioamadores que se destacaram em Campina Grande ao longo das últimas décadas, chegamos hoje a uma figura cuja trajetória se confunde com a própria história do radioamadorismo campinense: o engenheiro Jackson Farias Braga – PR7FB.

Aos 74 anos de idade e com 54 anos dedicados ao radioamadorismo, Jackson é daqueles personagens que traduzem, em sua história, a essência de um hobby que vai muito além de apertar um botão e falar ao microfone. Sua trajetória é marcada pela paixão pela telegrafia, pelos contatos internacionais, pelos desafios técnicos, pelas amizades construídas através das ondas de rádio e, sobretudo, por uma expressiva folha de serviços prestados à comunidade radioamadora.

Entre suas contribuições mais importantes está sua participação decisiva na construção da Escola e Casa do Radioamador – ECRA, instituição que representa um importante capítulo da história do radioamadorismo em Campina Grande.

Mas, antes de chegar aos grandes DX, ao Honor Roll do DXCC e às centenas de entidades confirmadas, houve um menino curioso, um velho rádio valvulado e uma noite de chuva. No final dos anos 1960 e início dos anos 1970, na casa dos pais de Jackson havia um rádio receptor valvulado TELEFUNKEN, modelo Augretto. O aparelho possuía uma faixa para ondas médias e nada menos que oito faixas para ondas curtas. Para o jovem Jackson, aquele rádio era uma verdadeira janela para o mundo.

Ele gostava de percorrer o dial e ouvir estações estrangeiras que transmitiam para o Brasil. Até que, certa noite, aconteceu algo que mudaria definitivamente sua vida.

Em meio a uma noite de chuva, sintonizado na faixa de 41 metros, Jackson ouviu uma estação com sinal extremamente forte. Do outro lado, uma segunda estação, com sinal mais fraco, respondia. Os operadores trocavam informações e, ao passarem a vez, identificavam suas estações por meio dos indicativos. Aquilo despertou sua curiosidade.

No dia seguinte, comentou o fato com um colega de sala de aula, que também gostava de ouvir rádio. Foi então que recebeu a explicação que abriria uma nova porta em sua vida: Eram radioamadores. O colega contou ainda que um tio seu era radioamador e que poderia levá-lo até sua casa para conhecer a estação. E assim aconteceu.

Num sábado à tarde, Jackson conheceu a estação de Pedro Fernandes Feitosa – PY7LAJ, localizada no bairro da Prata, em Campina Grande. Feitosa o recebeu muito bem, explicou o funcionamento da estação, mostrou-lhe as operações em fonia e em CW e, principalmente, apresentou uma coleção de cartões QSL recebidos de várias partes do mundo. Para o jovem Jackson, aquilo era fascinante. Foi então que veio a pergunta: “Você quer ser radioamador?”

Jackson não hesita ao recordar aquele momento. Segundo ele, foi ali que o “vírus RADIOCCOCUS” o contaminou. Feitosa explicou que, para ingressar no radioamadorismo, seria necessário aprender o código Morse e prestar os exames exigidos para obtenção da licença. As aulas de Morse eram ministradas gratuitamente no Clube de Radioamadores de Campina Grande, às terças e quintas-feiras. Jackson iniciou seu aprendizado e, em 1972, realizou os exames na LABRE, em João Pessoa, sendo aprovado.

Aqui ele fala com o mundo
Aqui ele fala com o mundo

Em junho daquele ano começou oficialmente sua trajetória como radioamador Classe B, com o indicativo PY7BXI. Em outubro de 1972, prestou exame para a Classe A e foi aprovado. O sonho começava a se tornar realidade. Havia, entretanto, um pequeno problema: Jackson era estudante e não tinha dinheiro para comprar um transceptor. Os equipamentos nacionais e estrangeiros disponíveis naquela época estavam muito além de suas possibilidades financeiras. Foi quando apareceu uma solução. O radioamador campinense Mário Sérgio – PY7VON ofereceu-lhe um transmissor nacional Delta 310/1, que operava em AM e CW, com potência máxima de 25 watts e cobertura de 80 a 10 metros. O pagamento foi dividido em cinco parcelas. Jackson utilizou a mesada que recebia pelo trabalho na farmácia de seu pai para quitar o equipamento.

Para ajudá-lo na instalação estava o então conhecido “coruja” da cidade, Sargento Lira, que anos mais tarde também se tornaria radioamador, recebendo o indicativo PY7CDW. Mas ainda faltava um receptor. A solução encontrada por Jackson era quase artesanal. Ele utilizava um rádio de pilha para receber as estações e empregava o BFO do Delta para ajustar a frequência. Era uma verdadeira operação de engenharia improvisada, mas funcionava. E funcionava muito bem.

Chegou finalmente o momento do batismo. Em AM, nos 40 metros, quem respondeu ao seu primeiro chamado foi PY7BRB – Mariberto, de Currais Novos, no Rio Grande do Norte. Mariberto tornou-se, assim, seu padrinho em fonia. Mais tarde, chamando em CW, foi atendido por PY7BTX – Veras, de Limoeiro, Pernambuco. Veras passou a ser seu padrinho na telegrafia. Os primeiros contatos em CW alcançaram estações do Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste.

Até que, certa noite, as condições de propagação estavam excelentes. Os sinais da Europa e da América do Norte chegavam fortes. Jackson resolveu fazer um CQ DX em CW. A resposta veio de longe. Do outro lado estava YU3UMC, operado por Drago, da então Iugoslávia, na cidade de Brod. O sinal recebido foi RST 569. Era seu primeiro QSO internacional. A emoção foi enorme. Jackson ainda guarda cuidadosamente o cartão QSL que confirma aquele contato. A partir daquele momento, o radioamadorismo nunca mais seria o mesmo.

A experiência ensinou uma coisa importante a Jackson: com apenas 25 watts e uma boa antena, era possível alcançar lugares muito distantes utilizando a telegrafia. Em fonia, as limitações eram maiores. Foi assim que passou a dedicar cada vez mais tempo ao CW.

Parque de antenas
Parque de antenas

Com a licença de Classe A, poderia operar em todas as bandas de HF, mas ainda precisava melhorar sua estação. Adquiriu um conversor ARS de PY7BTC – Moacir, de João Pessoa, que permitia operar de 40 a 10 metros. Começou a experimentar os 15 metros usando o V invertido dos 40 metros e, posteriormente, construiu novas antenas, incluindo um dipolo para 20 metros e uma antena vertical monobanda para 10 metros. Chegou a realizar DX com Angola em AM nessa última banda. Foram cinco anos de muito aprendizado, experimentação e descobertas.

Em 1977, Jackson concluiu o curso de Engenharia Civil na Escola Politécnica da UFPB, em Campina Grande. Saiu então da cidade para exercer a profissão. Durante aproximadamente quatro anos ficou QRT, expressão utilizada pelos radioamadores para indicar que a estação estava fora do ar. Trabalhando em Arcoverde, Pernambuco, voltou ao rádio. Adquiriu um transceptor usado Heathkit HW-101, com 90 watts, que possuía uma excelente recepção e permitia operar em SSB e CW.

Como se não bastasse, ganhou uma antena Electril DXV-4 em um concurso de CW promovido pelo PPC – Pica Pau Carioca. Instalou a antena no barracão do escritório da obra. À noite, depois do trabalho, era hora de voltar ao mundo dos DX. “Era uma festa”, recorda. Cada cartão QSL recebido do exterior pela LABRE provocava uma satisfação especial. E a coleção crescia. Ao longo dos anos, Jackson transformou o radioamadorismo em uma verdadeira busca por novos horizontes.

Concursos nacionais e internacionais, expedições a países com poucos radioamadores, operações em ilhas oceânicas e localidades remotas passaram a alimentar ainda mais sua paixão. Entre os contatos que mais orgulho lhe proporcionam está a operação de Scarborough Reef, no Mar da China, através da estação BS7H, em 1995. Operando nos 20 metros, em CW, Jackson passou nada menos que duas horas e quarenta minutos tentando ser ouvido.

Do outro lado estavam numerosas estações chinesas e japonesas, muitas delas utilizando potências superiores a 1.000 watts e antenas direcionais. Jackson, por sua vez, estava com apenas 100 watts e uma antena gaiola. Depois de muita insistência, finalmente foi ouvido. O cobiçado QSL chegou posteriormente por via direta. Uma verdadeira conquista – assinala ele.

Outro episódio que Jackson considera extraordinário ocorreu durante uma tarde de sábado, enquanto percorria as bandas em busca de DX. De repente, ouviu a estação P5/4L5FN, operando de Pyongyang, capital da Coreia do Norte. O sinal chegava com intensidade entre 55 e 57. Jackson chamou. Foi ouvido. Mesmo diante da dúvida sobre a autenticidade da operação, decidiu realizar o contato. Posteriormente recebeu os cartões QSL confirmando o QSO, inclusive por via direta e através da LABRE. A operação foi reconhecida para o DXCC – DX Century Club. Para um apaixonado por DX, momentos como esse representam verdadeiros troféus.

Atualmente, possui 347 entidades confirmadas, incluindo entidades que posteriormente foram deletadas. Considerando as entidades atualmente válidas, são 340 confirmadas. Desse total, 336 foram trabalhadas em CW e apenas quatro em fonia. Esse desempenho o colocou no Honor Roll do DXCC e entre os Top 10.

No programa IOTA – Islands On The Air, promovido pela RSGB, Jackson também apresenta uma marca expressiva: 750 ilhas marítimas confirmadas, de um universo de aproximadamente 1.050 cadastradas no programa.  São números que demonstram não apenas sua longevidade no hobby, mas principalmente sua dedicação à modalidade de DX e à telegrafia.

Nem tudo, entretanto, são números e grandes conquistas. O radioamadorismo também proporciona histórias curiosas. Jackson lembra de um contato em CW com um radioamador argentino. Depois de alguns minutos de conversa, observou que a tonalidade do sinal do argentino não era das melhores, embora ainda fosse possível decifrar a transmissão. Foi então que veio a explicação inusitada: O argentino estava transmitindo os sinais de Morse assobiando no microfone do rádio. Jackson não perdeu a oportunidade: “Você é doido!”

A resposta do outro lado foi imediata: “Mais doido é você, porque conseguiu copiar tudo o que eu transmiti.” Uma história que resume, de certa forma, o espírito irreverente e criativo que também faz parte do radioamadorismo.

Para Jackson, o radioamadorismo trouxe muito mais do que contatos à distância. Trouxe conhecimento. Ele conta que o hobby desenvolveu nele uma grande sensibilidade para orientação geográfica e compreensão dos fusos horários.

 Segundo ele, ao acompanhar as bandas, o radioamador aprende onde estão as regiões do planeta, conhece países, ilhas e localidades que talvez jamais tivesse ouvido falar e passa a compreender também os melhores horários para estabelecer contatos de longa distância, de acordo com as condições de propagação. É, portanto, uma escola permanente. Uma escola em que geografia, eletrônica, física, meteorologia, idiomas, disciplina e paciência caminham lado a lado.

Talvez nenhuma frase resuma melhor a paixão de Jackson Farias Braga pelo radioamadorismo do que aquela que ele próprio escolheu para definir o hobby: “Tenho o mundo em minhas mãos sem necessidade da internet.” É uma frase simples, mas profundamente representativa. Antes da internet colocar o planeta inteiro na palma da mão de qualquer pessoa, o radioamador já fazia isso utilizando ondas eletromagnéticas, antenas, conhecimento técnico e muita dedicação – assinalou.

E ainda hoje, mesmo diante de toda a modernização tecnológica, existe algo de especial em girar o dial, ouvir um sinal distante, chamar uma estação e descobrir que alguém, do outro lado do mundo, está ouvindo. Ele deixa também um conselho especialmente aos que estão começando. Muitos novos radioamadores ingressam no hobby pelas bandas de VHF e permanecem quase exclusivamente nesse espectro. Sua sugestão é simples: explorem as bandas de HF. Pesquisem. Experimentem. Procurem novos horizontes.

A história de Jackson Farias Braga – PR7FB é, acima de tudo, uma história de perseverança. O jovem estudante que não tinha dinheiro para comprar um transceptor moderno encontrou alternativas. Começou com um equipamento de apenas 25 watts, uma antena improvisada e muita vontade de aprender. Não se intimidou diante das limitações. Pelo contrário: transformou as dificuldades em motivação.

Mas talvez a maior conquista de Jackson não esteja nos números. Está na permanência. São 54 anos de radioamadorismo, mantendo viva a curiosidade daquele jovem que, numa noite de chuva, ouviu duas vozes distantes conversando através das ondas de rádio e quis descobrir quem eram aquelas pessoas. Décadas depois, ele continua fazendo exatamente aquilo que descobriu naquela noite: abrindo uma janela para o mundo através do rádio.

E talvez seja justamente por isso que sua trajetória merece ser lembrada e registrada. Porque o radioamadorismo não é apenas uma atividade técnica. É amizade, conhecimento, disciplina, curiosidade, perseverança e, sobretudo, a capacidade de transformar ondas invisíveis em histórias que atravessam fronteiras. Jackson Farias Braga – PR7FB é, sem dúvida, um desses nomes que ajudaram a escrever a história do radioamadorismo em Campina Grande.

 

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1 comentário


Lucienio Teixeira
Lucienio Teixeira
07 de out.

Parabéns ao colega João Barros por nos brindar com esse belo texto, repleto de incentivo para nós radioamadores e, principalmente, como leituta instigante para quem ainda não faz parte do hobby. E parabéns em dobro ao nobre colega Jackson, pela perserverança e amor ao radioamadorismo! 73, muito QSO, pouco QRM/N, sáude e paz para todos nós que merecemos!


de PR7LO - Luciênio

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