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Aos 81 anos, radioamador de Afogados da Ingazeira mantém viva a paixão pelas ondas do rádio, pelas amizades e pelo espírito de servir

Foto do escritor: João Barros
João Barros
17 de set.
5 min de leitura


Reginaldo Remígio Mendes, conhecido carinhosamente entre os colegas como Professor Remígio, carrega uma história de 54 anos dedicada ao radioamadorismo. Aos 81 anos, continua ativo e apaixonado pelo rádio, atividade que, segundo ele, lhe proporcionou alegrias, conhecimento e amizades espalhadas pelo Brasil e pelo mundo.

Em conversa com o Blog de João Barros, Remígio relembrou momentos marcantes de sua trajetória, desde os primeiros contatos com as ondas curtas até a criação e consolidação da Rodada Amigos do Sertão, que há 17 anos reúne diariamente radioamadores do Nordeste.

Morador de Afogados da Ingazeira, em Pernambuco, onde utiliza o indicativo PY7PR, Remígio também mantém residência na zona rural de Monteiro, na Paraíba, onde possui o indicativo PR7GM.

Casado com Maria José Quidute Remígio (PY7QR), também radioamadora, é pai de dois filhos, avô de duas netas e bisavô de três bisnetas. “Isso vem completar a minha felicidade”, afirma.

A aproximação com o radioamadorismo aconteceu quando Remígio ainda era um ouvinte. Ele conta que costumava “corujar” através de um rádio ABC, na faixa de 41 metros, em Ondas Curtas, numa época em que o AM predominava.

Entre as transmissões que acompanhava estava a rodada Gaio da Roseira, apresentada diariamente pelo recifense Jaime Barros (PY7BHP), na frequência de 7.200 kHz. A curiosidade inicial acabou se transformando em uma paixão que permanece até hoje.

Ao longo das décadas, Remígio estabeleceu contatos com radioamadores de diferentes regiões do mundo. Entre os mais distantes, lembra de uma estação brasileira do Rio de Janeiro que operava às margens do Mar Mediterrâneo, além de contatos com países europeus e africanos.

Também manteve frequentes QSOs com uma estação das Ilhas Canárias, operada por um colega casado com uma brasileira natural do Rio de Janeiro.

Segundo ele entre tantas lembranças, uma das mais emocionantes aconteceu ainda nos anos 1970, durante a Rodada do Corujão, em AM, nos 40 metros. A rodada começava às 22 horas e reunia radioamadores da Paraíba, Pernambuco, Ceará e de outros estados. Foi naquele ambiente de companheirismo que ocorreu um episódio que Remígio jamais esqueceu.

Um caminhoneiro residente em Belo Horizonte (MG), que se preparava para viajar para o Nordeste, havia sido mordido pelo cão da família. No dia seguinte, o animal apresentou sinais de raiva. Diante da gravidade da situação, um radioamador que morava próximo à residência do caminhoneiro mobilizou outros colegas para tentar localizá-lo antes que ele avançasse em sua viagem.

A busca deu resultado. Por volta das 2 horas da manhã, através de um radioamador da Bahia, o caminhoneiro foi localizado e parado pela Polícia Rodoviária Federal, já no Sertão Baiano. Informado sobre o ocorrido, foi encaminhado imediatamente para atendimento médico.


Para Remígio, o episódio demonstra a dimensão humana do radioamadorismo, especialmente em uma época em que as comunicações telefônicas interurbanas eram difíceis e caras.

“Naquela época, não dispúnhamos de telefone interurbano”, recorda. Por isso, muitas vezes, ele próprio se deslocava para transmitir QTCs de diferentes naturezas, inclusive em cidades vizinhas.

O rádio, segundo ele, permite exercitar as comunicações, compartilhar informações, ampliar conhecimentos técnicos e, acima de tudo, conquistar grandes amizades, sempre respeitando a legislação e a ética operacional. “Na verdade, o rádio é o companheiro para todos os momentos que todo cidadão deveria ter.”

Sua entrada efetiva no radioamadorismo também contou com a ajuda de amigos. Eládio Verçosa (PY7AOZ) disponibilizou um equipamento Delta 310 e 209, respectivamente transmissor e receptor, possibilitando que Remígio pudesse se comunicar com outros radioamadores, inclusive de regiões distantes do planeta.

Ele faz questão de reconhecer ainda a importância de Tadeu Augusto Martins da Fonseca (PY7BOV), engenheiro elétrico e conhecedor de Eletrônica, e de Eládio, exímio telegrafista e oficial da Marinha Brasileira.

Ambos contribuíram para sua formação em Eletrônica e Telegrafia e foram fundamentais para que ele pudesse realizar o sonho de se tornar radioamador, após as provas junto ao então DENTEL.

RODADA AMIGOS DO SERTÃO

Remígio também falou sobre a criação da  Rodada Amigos do Sertão que nasceu em 12 de junho de 2009, após uma notícia que entristeceu os participantes de uma rodada de rádio. Naquela noite, por volta das 19 horas, o colega Paraô (PU7KKK), de Caicó (RN), comunicou o falecimento do amigo Lima (PY7APU), de São José do Egito (PE). Mais de uma dezena de radioamadores participava da rodada quando surgiu a ideia de preencher um espaço existente no sistema de repetidoras da ECRA.

Depois de várias sugestões, os participantes chegaram a um consenso: Rodada Amigos do Sertão.

A primeira transmissão aconteceu em 15 de junho de 2009, na segunda-feira seguinte ao falecimento de Lima. Remígio assumiu a coordenação durante um longo período. Como forma de homenagem, Lima (PY7APU) foi escolhido como patrono da rodada.

Atualmente, a coordenação conta com PY7PR – Professor Remígio, de Afogados da Ingazeira; PR7KG – Carlinhos, de Cajazeiras (PB); e PU7HAD – Adalberto, de Patos (PB).

A Rodada Amigos do Sertão vai ao ar diariamente das 18h às 19h, reunindo radioamadores principalmente da Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará.

Segundo Remígio, a participação diária fica entre 25 e 30 radioamadores, chegando a aproximadamente 1.300 participações por ano. Mais do que uma simples rodada, tornou-se um espaço de convivência, aprendizado e solidariedade. A proposta, segundo seu coordenador, é contribuir para um radioamadorismo vivo, oferecendo conhecimentos, esclarecendo dúvidas e ajudando principalmente aqueles que estão começando na Classe C.

Ao longo dos anos, diversos episódios reforçaram o espírito de solidariedade entre os participantes. Foram realizadas campanhas para ajudar colegas que enfrentavam dificuldades, inclusive para tratamentos de saúde, aquisição de medicamentos e compra de equipamentos. Remígio acredita que a confiança construída entre os participantes foi fundamental para o sucesso dessas iniciativas.

Entre as muitas amizades conquistadas pelo rádio, ele cita Cardoso (PY7AC), de Triunfo (PE), com quem mantém uma relação de respeito e amizade que, segundo ele, dá a sensação de que estão conversando “como se estivéssemos na sua ou em nossa própria casa

 Aquele apaixonado pelo rádio disse se tivesse a oportunidade de voltar no tempo, não hesitaria: “Faria tudo novamente para se tornar radioamador.”

Aos iniciantes e, especialmente, aos jovens, deixa o conselho de que conheçam o radioamadorismo e sigam o exemplo daqueles que continuam mantendo viva a comunicação, mesmo depois de muitos anos.

Além da Rodada Amigos do Sertão, Professor Remígio participa da coordenação da tradicional Rodada Padre Cícero, em 40 metros, na frequência de 7.060 kHz, que  reúne radioamadores dos nove estados do Nordeste e também amigos das regiões Norte, Sudeste e Centro-Oeste.

Depois de mais de cinco décadas no rádio, Remígio considera essa convivência uma recompensa por toda a sua trajetória. “Mais de 50 anos de dedicação, companheirismo e muita determinação, conquistando grandes amizades e colaborando para um radioamadorismo interativo, com a oportunidade de ampliar cada vez mais os conhecimentos, a fim de que sirvam de exemplo para as novas gerações.”


O apoio familiar também ocupa lugar especial em sua história. Remígio afirma que sempre contou com a compreensão da família, mesmo quando a atividade radioamadorística interferia no horário das refeições ou do descanso, especialmente durante os contestes do calendário anual. “Estarei presente até os últimos dias que Deus me proporcionar junto à família e aos amigos, em especial aos radioamadores”, afirma.

Aos 81 anos, Professor Remígio continua fazendo do rádio muito mais do que um meio de comunicação. Para ele, as ondas que atravessam distâncias também carregam conhecimento, solidariedade, companheirismo e amizade.

São 54 anos no ar — e, para quem fez do rádio uma forma de servir e aproximar pessoas, ainda há muita história para contar.

 

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